Pelos seus frutos: a extrema-direita que se diz cristã
De Budapeste a Brasília, de Washington a Lisboa: de onde vem, porque cresce, como se organiza e porque é que não passa no teste que Jesus deixou.
Em quase todos os comícios aparecem as mesmas palavras: Deus, pátria, família, liberdade. Quem as ouve na igreja reconhece-as e confia. Esta série faz uma pergunta simples, a mesma que Jesus mandou fazer: quais são os frutos? Não o que dizem, mas o que fizeram — com data, com nome e com a fonte ao lado.
Este é o artigo de abertura. Explica de onde vem este movimento, porque cresce, como se organiza e porque é que, medido pela régua do Evangelho, não é aquilo que diz ser. Os artigos seguintes olham para cada líder, um de cada vez.

1. Não é a mesma coisa que o nazismo — mas tem raízes profundas
Seria desonesto pôr os políticos de hoje ao lado de Mussolini, de Hitler, de Franco ou de Pinochet. Mussolini dissolveu o parlamento italiano e usou gás contra civis na Etiópia. Hitler conduziu o genocídio de seis milhões de judeus e de milhões de outras vítimas. Franco fuzilou opositores aos milhares. Pinochet deixou mais de três mil mortos e desaparecidos e dezenas de milhares de torturados. Os líderes de hoje foram eleitos e governam, em geral, dentro de instituições que ainda funcionam — e é precisamente isso que lhes dá legitimidade aos olhos de quem os apoia.
Mas as ideias têm história. O lema «Deus, Pátria e Família», tão repetido no Brasil, não nasceu na Bíblia: foi o lema da Ação Integralista Brasileira, fundada por Plínio Salgado em 1932, à imagem do fascismo europeu. Os seus militantes vestiam camisas verdes e saudavam de braço erguido. Noventa anos depois, o lema voltou — com a mesma promessa de uma nação de um só Deus, de um só modelo de família e de um só partido de patriotas, e com os outros do lado de fora.
2. Porque cresce agora
Os estudiosos apontam várias causas que se somam, e nenhuma delas é religiosa:
- A indústria que fechou. A globalização levou fábricas para longe e deixou regiões inteiras com a sensação de terem sido «deixadas para trás».
- Os serviços públicos que encolheram. Anos de austeridade tornaram mais dura a disputa por um médico, uma casa ou uma vaga na escola. É aqui que nasce o discurso de que os apoios devem ser «só para os nossos».
- O medo da imigração. A chegada de refugiados e imigrantes foi apresentada como ameaça ao emprego, à segurança e à identidade.
- O cansaço com o centro. Os partidos tradicionais, à esquerda e à direita, perderam a confiança de muita gente.
- A estratégia de normalização. Os novos líderes trocaram os símbolos abertamente extremistas por temas como o custo de vida e a segurança — e assim chegaram ao eleitor moderado.
E há uma causa que este blog conhece bem: o algoritmo. As redes sociais premeiam a indignação, a frase curta e o inimigo fácil. Quem grita mais alto chega mais longe — e, quando o grito vem embrulhado num versículo, chega também ao grupo da igreja. É o tema central de O Altar e o Algoritmo.
3. Não são casos isolados: é uma rede bem organizada
Trump, os Bolsonaro, Milei, Orbán e Ventura não se limitam a pensar de forma parecida. Encontram-se, trocam estratégias e ajudam-se.
- Budapeste como ponte. Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, transformou o seu país num laboratório do que ele próprio chama «democracia iliberal» e na ponte entre o movimento de Trump e a direita radical europeia. Recebe todos os anos a CPAC Hungria, a versão europeia da grande conferência conservadora americana. Em março de 2026, Javier Milei discursou lá, e o programa anunciava Eduardo Bolsonaro, André Ventura e Santiago Abascal, do Vox espanhol.
- Um grupo no Parlamento Europeu. O Chega senta-se com o Fidesz de Orbán, o Rassemblement National de Marine Le Pen e o Vox no grupo Patriotas pela Europa, que defende menos poder para Bruxelas, fronteiras mais fechadas e, em vários dos seus partidos, menos apoio à Ucrânia.
- Ajuda quando é preciso. Em outubro de 2026, Flávio Bolsonaro perdeu a eleição, não reconheceu o resultado e saiu do Brasil de noite, apesar de estar proibido de sair do país. A Argentina de Milei deixou-o passar; os Estados Unidos de Trump receberam-no, e segundo o New York Times o próprio avião foi arranjado a partir da Casa Branca. Flávio agradeceu aos dois.
Houve também quem falasse de Fernando de Noronha. O que existe, até hoje, é uma notícia de 2025 de que pessoas próximas de Trump terão sondado, de forma informal, o uso militar das bases de Noronha e de Natal, invocando um «direito histórico» da Segunda Guerra. Militares brasileiros chamaram-lhe «juridicamente inviável» e não houve confirmação oficial. Fica registado como sondagem, não como facto. A Carta da ONU, no seu artigo 2.º, proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial de qualquer Estado.
4. As marcas de uma seita religiosa
Uso a palavra com cuidado. Não a uso para insultar uma igreja, nem as pessoas que votaram. Uso-a para descrever um sistema que funciona como as seitas funcionam:
- Um líder que não erra. Chamam-lhe «mito»; quem aponta um erro dele passa a ser inimigo.
- Um inimigo absoluto. O adversário não é alguém que pensa diferente: é «comunista», «inimigo de Deus», alguém que se pode «fuzilar».
- Informação fechada. Só se acredita no que chega pelos grupos do movimento; tudo o resto é «imprensa comprada».
- Castigo para quem pensa diferente — no emprego, na família, no grupo da igreja e, nos casos extremos, com a vida.
- O nome de Deus a justificar tudo isto.
Os factos confirmam cada marca. Em 2022, o Ministério Público do Trabalho do Brasil recebeu 2 838 denúncias de patrões que ameaçaram despedir ou prometeram prémios por causa do voto — quase treze vezes mais do que em 2018, na maioria a favor de Bolsonaro. Uma transportadora do Paraná foi condenada por apresentar a eleição aos trabalhadores como uma «guerra espiritual». E na mesma campanha houve eleitores de Lula assassinados por apoiantes de Bolsonaro por causa da política, com os autores julgados e condenados — conto-o no artigo sobre Jair Bolsonaro.
5. Quem conserva o quê
Diz-se que a extrema-direita é conservadora. Conservar é guardar o que existe e tem valor. O Brasil tem uma Constituição, escrita em 1988 depois de vinte e um anos de ditadura; tem urnas que contam votos há trinta anos sem uma fraude provada; tem uma regra simples: quem perde entrega o poder.
Quem tentou rasgar essa regra não foi a esquerda. Foi o movimento que perdeu em 2022 e, a 8 de janeiro de 2023, destruiu o Congresso, o Planalto e o Supremo; cujo líder foi condenado em 2025 por tentativa de golpe; e cujo candidato de 2026 saiu do país de noite em vez de aceitar a derrota. Do outro lado, quando a justiça condenou Lula em 2018, ele apresentou-se à polícia e ficou 580 dias preso, até o Supremo anular as condenações em 2021. E a família, que tanto se invoca, conserva-se com comida na mesa: em julho de 2025, a ONU anunciou que o Brasil tinha saído outra vez do Mapa da Fome.
Por este critério — o único que importa numa democracia — foram os outros a conservar o que os «conservadores» quiseram destruir.
6. O teste dos frutos
Nos artigos desta série olho para cada um com a mesma medida: o que está provado em tribunal, o que está documentado pela imprensa e o que ainda está sob investigação — e registo também o que lhes é favorável, quando existe. Não é preciso exagerar. Os factos chegam.
«Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?»
Mateus 7:16
Este artigo faz parte da série que acompanha o livro O Altar e o Algoritmo — Como identificar os novos mercadores da fé. A regra é a mesma do livro: separar o facto provado da suspeita e da negação da defesa, e pôr a fonte ao lado de cada afirmação.
A série «Pelos seus frutos»
- A extrema-direita que se diz cristã
- Donald Trump
- Jair Bolsonaro
- Eduardo e Flávio Bolsonaro
- Javier Milei
- André Ventura
Fontes
- Infobae — Milei chega à Hungria para discursar na CPAC (20/03/2026)
- Buenos Aires Herald — Milei em Budapeste com Orbán
- CNN Brasil — Brasil apura ação da Argentina e dos EUA na fuga de Flávio (29/10/2026)
- CNN Brasil — Assessor de Trump providenciou jato para Flávio, diz NYT (29/10/2026)
- DefesaNet — EUA e o acesso a Fernando de Noronha e Natal (2025)
- Congresso em Foco — Assédio eleitoral 13 vezes maior do que em 2018
- Vermelho — TST condena empresários por assédio eleitoral pró-Bolsonaro
- O Povo — Brasil sai do Mapa da Fome (28/07/2025)
Artigos
Comentários (2)
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Júlio CésarExistiu uma faze anterior ao nazismo que se encaixa bem na definição do bolsonarismo na atualidade, que foi o fascismo na Itália.
- JOSE PEREIRA DE MERCES AutorExatamente. É uma distinção histórica fundamental. O fascismo italiano apoiava-se fortemente no culto ao Estado, na retórica nacionalista de regeneração e nos lemas morais tradicionais, sem o componente biológico e o extermínio industrial do nazismo alemão. É por isso que as dinâmicas de poder de hoje se espelham muito mais nesse modelo corporativista e identitário do que naquilo que aconteceu na Alemanha.