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Fé e sociedade 5 min

Pelos seus frutos: André Ventura

Os eleitores de Lula, o vídeo falso, a condenação por discriminação, a comunidade cigana e a rede internacional do Chega.

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Pelos seus frutos: André Ventura

André Ventura fala muitas vezes em nome dos valores cristãos e da família. Para os brasileiros que vivem em Portugal — a maior comunidade estrangeira do país, e eu sou um deles —, os seus frutos não são abstratos. São pessoais.

André Ventura: os factos, com fontes
André Ventura: os factos, com fontes

«Voltem para o Brasil»

A 26 de outubro de 2026, um dia depois da vitória de Lula, Ventura publicou um vídeo no Instagram a dizer que, «no que depender» dele, os brasileiros em Portugal que votaram em Lula deviam voltar para o Brasil — para a «ditadura» e a «miséria», escreveu na legenda.

Repare no que isto significa. São pessoas que vivem aqui legalmente, trabalham nas obras, nos restaurantes, nos hospitais e nos lares, pagam impostos e descontam para a segurança social portuguesa. O critério de Ventura para as pôr fora não foi o que fizeram: foi em quem votaram, noutro país. É a mesma lógica dos patrões brasileiros que ameaçavam despedir quem votasse em Lula — só que dita por quem quer governar Portugal.

O vídeo falso

Para ilustrar a ideia, Ventura partilhou um vídeo de «bandidos a celebrar o resultado» da eleição, que chamou «estranha». O Polígrafo, o verificador de factos do SAPO, investigou e classificou-o como falso: as imagens eram de fevereiro de 2022, numa prisão do Recife, com presos a festejar golos do Santa Cruz contra o Sport. Não tinham nada a ver com a eleição.

Lula ganhou com 51,79% dos votos. Ventura não precisava de inventar nada para discordar do resultado. Escolheu ilustrar a sua opinião com uma mentira verificável — e quem a partilhou acreditou nela.

«Estas seis coisas o Senhor odeia; sim, sete a sua alma abomina: […] a testemunha falsa que respira mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.»

Provérbios 6:16, 19

Condenado por discriminação

Este não é o primeiro caso. Em 2021, Ventura foi condenado por ter chamado «bandidos» a uma família do Bairro da Jamaica, no Seixal. Recorreu, e perdeu duas vezes: o Tribunal da Relação de Lisboa confirmou a condenação em setembro de 2021 e o Supremo Tribunal de Justiça manteve-a em dezembro. A Relação viu nas ofensas uma «vertente discriminatória em função da cor da pele e da situação socioeconómica». O tribunal mandou-o retratar-se publicamente, sob pena de pagar 5 000 euros por cada nova ofensa. Ventura considerou a decisão injusta e anunciou recurso para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

É o mesmo padrão: acusar sem provas pessoas concretas, escolhidas pela cor, pela origem ou pelo voto.

A comunidade cigana

O Ministério Público abriu um inquérito aos vídeos de Ventura sobre a comunidade cigana, depois de dez associações apresentarem queixa por incitamento ao ódio. Ventura disse que aguarda o resultado; não há, até agora, decisão conhecida. Um inquérito diferente, sobre os cartazes do Chega «Os ciganos têm de cumprir a lei» e «Isto não é o Bangladesh», foi arquivado pelo Ministério Público em março de 2026 — e fica aqui registado.

Mas as palavras não ficam no papel. Em outubro de 2025, a Renascença noticiou que crianças ciganas estavam a ser insultadas nas escolas com gritos de «Viva o Chega» e «morte aos ciganos». O partido não é responsável pelo que outros gritam; mas é responsável pelas palavras que lhes dá.

Na rede internacional

No Parlamento Europeu, o Chega senta-se no grupo Patriotas pela Europa, com o Fidesz de Viktor Orbán, o Rassemblement National de Marine Le Pen e o Vox. O programa da CPAC de Budapeste, em março de 2026, anunciava Ventura ao lado de Javier Milei e de Eduardo Bolsonaro. É a mesma família política que, meses depois, ajudou Flávio Bolsonaro a sair do Brasil.

Para ser completo

Há factos que lhe são favoráveis, e um artigo honesto regista-os. Na mesma semana dos eleitores de Lula, Ventura disse que Flávio Bolsonaro «não devia ter fugido» e que, se estivesse no Governo, não lhe daria asilo. Em 2020, declarou-se contra a pena de morte, que os militantes do seu partido rejeitaram em votação interna; defende antes a prisão perpétua. Propôs a castração química para condenados por abuso de menores, projeto que o Parlamento recusou debater.

«Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia seu irmão, é mentiroso.»

1 João 4:20

«Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.»

João 13:35

«Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?»

Mateus 7:16

Este artigo faz parte da série que acompanha o livro O Altar e o Algoritmo — Como identificar os novos mercadores da fé. A regra é a mesma do livro: separar o facto provado da suspeita e da negação da defesa, e pôr a fonte ao lado de cada afirmação.

A série «Pelos seus frutos»

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