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Fé e sociedade 4 min

Pelos seus frutos: Javier Milei

Os 30 mil desaparecidos, o protocolo antipiquetes, os vetos às universidades e às pensões, a pobreza e a porta aberta a Flávio Bolsonaro.

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Pelos seus frutos: Javier Milei

Javier Milei apresenta-se como libertário, inimigo do Estado, e entrou na campanha de motosserra na mão. Os seus defensores falam sobretudo de economia. Mas os frutos de um governo vão além da inflação — e em outubro de 2026 chegaram ao Brasil.

Javier Milei: os factos, com fontes
Javier Milei: os factos, com fontes

A memória dos desaparecidos

No debate presidencial de 1 de outubro de 2023, Milei contestou o número de 30 mil desaparecidos da ditadura militar argentina (1976–1983): «não foram 30 mil, são 8 753». Falou dos anos 70 como de uma guerra em que houve «excessos» dos dois lados. Estela de Carlotto, das Avós da Praça de Maio — as avós que passaram décadas a procurar os netos roubados pela ditadura —, disse que a frase ofendia «de uma maneira brutal» as famílias das vítimas.

O número oficial da comissão CONADEP, feito em 1984 com os casos então denunciados, ronda os nove mil; as organizações de direitos humanos estimam 30 mil, e um documento da própria inteligência militar, revelado em 2006, contava pelo menos 22 mil mortos e desaparecidos só até 1978. Discutir números é legítimo. Usar a discussão para diminuir o crime de Estado é outra coisa.

A rua e os direitos

Logo no início do mandato, em dezembro de 2023, o Ministério da Segurança aprovou o chamado «protocolo antipiquetes», que autoriza as forças de segurança a desimpedir à força as ruas bloqueadas por manifestações e a cobrar os custos às organizações. O governo extinguiu também o Ministério das Mulheres, Géneros e Diversidade.

Em 2024, Milei vetou a lei que aumentava as pensões e a lei de financiamento das universidades públicas, depois de algumas das maiores manifestações estudantis das últimas décadas na Argentina.

A pobreza

Para ser justo com os números: no primeiro semestre de 2024, depois do ajuste, a pobreza subiu para cerca de 53% dos argentinos, segundo o instituto oficial de estatística (INDEC); nos semestres seguintes desceu, à medida que a inflação baixou, para cerca de 38% e depois para cerca de 32%. A inflação caiu, e isso é um mérito. Mas o custo do ajuste caiu primeiro, e com mais força, sobre os mais pobres e os reformados.

Na rede

Milei é presença habitual nas conferências da CPAC: abraçou Trump na de Washington e, em março de 2026, discursou na de Budapeste, ao lado de Viktor Orbán. O programa desse encontro anunciava também Eduardo Bolsonaro e André Ventura.

A porta aberta

Em outubro de 2026, a Argentina recebeu Flávio Bolsonaro, que estava proibido pelo Supremo brasileiro de sair do país. O governo começou por negar a entrada; depois, os serviços de migração confirmaram que ele entrou às 22h50 e saiu quarenta minutos depois, num jato fretado, e disseram que os documentos estavam em ordem. Um diretor do governo celebrou que o senador estivesse «a salvo das garras do comunismo». O Clarín noticiou, com fontes anónimas, que o principal assessor de Milei, Santiago Caputo, acompanhou a operação em Puerto Iguazú; o chefe de gabinete defendeu a passagem e não explicou a presença dele.

Flávio agradeceu a Milei «pela coragem, senso de justiça e legalidade». O governo brasileiro abriu uma apuração sobre o papel da Argentina.

«Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.»

Mateus 25:40

«Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?»

Mateus 7:16

Este artigo faz parte da série que acompanha o livro O Altar e o Algoritmo — Como identificar os novos mercadores da fé. A regra é a mesma do livro: separar o facto provado da suspeita e da negação da defesa, e pôr a fonte ao lado de cada afirmação.

A série «Pelos seus frutos»

Fontes

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