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Fé e sociedade 5 min

Pelos seus frutos: Jair Bolsonaro

Do «vamos fuzilar a petralhada» à condenação por tentativa de golpe: a máquina digital, os pastores, a pandemia, os indígenas e os mortos de 2022.

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Pelos seus frutos: Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro chegou ao poder em 2018 com o lema «Brasil acima de tudo, Deus acima de todos» e o apoio de grande parte das igrejas evangélicas. Oito anos depois, os factos já não são opinião de ninguém: estão em sentenças, em relatórios de comissões parlamentares e em inquéritos da Polícia Federal.

Jair Bolsonaro: os factos, com fontes
Jair Bolsonaro: os factos, com fontes

A palavra que semeia

Em setembro de 2018, num comício em Rio Branco, no Acre, Bolsonaro pegou num tripé de câmara como numa espingarda e gritou: «Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre». A multidão riu e aplaudiu. Disse depois que era uma figura de linguagem.

Quatro anos depois, na campanha de 2022, a figura de linguagem ganhou corpo:

  • Marcelo Arruda, guarda municipal e tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu, foi morto na própria festa de 50 anos, que tinha o tema do partido. O policial penal Jorge Guaranho passou à porta a gritar o nome de Bolsonaro, foi-se embora e voltou armado. Foi condenado por um júri a 20 anos de prisão.
  • Benedito Cardoso dos Santos, em Confresa, no Mato Grosso, foi morto por um colega de trabalho, apoiante de Bolsonaro, depois de uma discussão sobre a eleição — com mais de setenta golpes de faca e de machado. O autor confessou e foi condenado a 14 anos; o Ministério Público afirmou que o crime teve motivação política.
  • Antônio Carlos Silva de Lima, em Cascavel, no Ceará, respondeu «eu sou» quando um homem entrou num bar a perguntar quem votava em Lula. Foi morto à facada. O Ministério Público escreveu na acusação: «uma vida ceifada por divergência política».

Para ser justo: em 2022 também morreram apoiantes de Bolsonaro, e esse sangue também clama. A violência não tem um só dono. Mas não foi Lula quem pegou num tripé e encenou o fuzilamento dos adversários. Nenhum tribunal disse que Bolsonaro mandou matar alguém, e este blog também não o diz. Mas um líder responde pelo que semeia.

A máquina digital

A imprensa chamou-lhe «gabinete do ódio»: um núcleo de produção e disparo de conteúdo que operava em articulação com pessoas próximas do poder. O Supremo Tribunal Federal abriu o Inquérito das Fake News e, depois, o Inquérito das Milícias Digitais, que levaram a quebras de sigilo, buscas, bloqueio de contas e suspensão de monetização. A CPI das Fake News, no Senado, descreveu uma cadeia com divisão de trabalho: quem produz, quem replica em massa, quem financia e quem dá o rosto. Não se bloqueia a receita de quem não tem receita.

O blogueiro Allan dos Santos, que misturava política com linguagem de «guerra espiritual», teve a prisão preventiva decretada pelo Supremo em outubro de 2021. Já estava nos Estados Unidos e não voltou. E o pastor Silas Malafaia, um dos principais articuladores do movimento, teve o passaporte apreendido pela Polícia Federal em 2025, no inquérito sobre a pressão feita a partir dos Estados Unidos contra o Judiciário brasileiro. Ambos negam qualquer crime e dizem-se perseguidos; a negação fica registada, como as investigações.

Os patrões que mandavam no voto

Em 2022, o Ministério Público do Trabalho recebeu 2 838 denúncias de assédio eleitoral, contra 2 137 empresas e patrões — quase treze vezes mais do que em 2018, na grande maioria a favor de Bolsonaro. Em Guarapuava, no Paraná, um funcionário foi despedido no dia a seguir à primeira volta. Na Bahia, uma empresária pediu aos outros patrões que despedissem «sem dó» quem votasse em Lula. O Tribunal Superior do Trabalho condenou associações empresariais de Santa Catarina por pressão sobre os trabalhadores.

A pandemia

A CPI da Pandemia, no Senado, terminou em outubro de 2021 a pedir o indiciamento de Bolsonaro por nove crimes, entre eles charlatanismo e crimes contra a humanidade, pela demora na compra de vacinas e pela promoção de remédios sem eficácia. O Brasil passou dos 700 mil mortos de covid.

Os indígenas

Entre 2019 e 2022, o Conselho Indigenista Missionário, ligado à Igreja Católica, contou 795 indígenas assassinados. Paulo Paulino Guajajara, o «Guardião da Floresta», foi morto numa emboscada de madeireiros em 2019; o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram mortos no Vale do Javari em 2022. Estes crimes foram cometidos por madeireiros, garimpeiros e pescadores ilegais, não por militantes. Mas aconteceram num governo que enfraqueceu a FUNAI e o IBAMA e prometeu não demarcar nem mais um centímetro de terra indígena.

Na Terra Yanomami, o garimpo ilegal cresceu, os rios encheram-se de mercúrio e as crianças morreram de fome e de malária — só em 2022, 99 crianças com menos de cinco anos, de mortes evitáveis. Em janeiro de 2023 foi declarada emergência de saúde pública, e a Polícia Federal abriu um inquérito por genocídio e omissão de socorro, ainda sem conclusão. A antiga ministra Damares Alves nega qualquer omissão.

O golpe

Depois de perder em 2022, os seus apoiantes acamparam à porta dos quartéis e, a 8 de janeiro de 2023, destruíram o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo. Em julho de 2025, o Supremo impôs-lhe medidas cautelares, entre elas a tornozeleira eletrónica. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.

«Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão.»

Mateus 26:52

«Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?»

Mateus 7:16

Este artigo faz parte da série que acompanha o livro O Altar e o Algoritmo — Como identificar os novos mercadores da fé. A regra é a mesma do livro: separar o facto provado da suspeita e da negação da defesa, e pôr a fonte ao lado de cada afirmação.

A série «Pelos seus frutos»

Fontes

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