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Fé e sociedade 6 min

Pelos seus frutos: Eduardo e Flávio Bolsonaro

Um filho pediu sanções contra o próprio país e foi denunciado por coação; o outro cobrou um banqueiro pelo filme do pai, perdeu a eleição e saiu do Brasil de noite.

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Pelos seus frutos: Eduardo e Flávio Bolsonaro

Dois filhos do mesmo ex-presidente, dois mandatos dados pelo povo brasileiro: um deputado federal por São Paulo, um senador pelo Rio de Janeiro. O que fizeram com eles está documentado — em cartas oficiais, em autos do Supremo e nas palavras deles próprios.

Eduardo e Flávio Bolsonaro: os factos, com fontes
Eduardo e Flávio Bolsonaro: os factos, com fontes

Eduardo: pedir castigo para o próprio país

Em março de 2025, o deputado Eduardo Bolsonaro pediu licença do mandato e mudou-se para os Estados Unidos. Não escondeu o objetivo: disse publicamente, e com orgulho, que ia pedir ao governo americano sanções contra as autoridades brasileiras que julgavam o pai. Terminada a licença, não voltou ao lugar para que fora eleito.

A operação deu resultado. Em julho de 2025, em poucas semanas, o governo Trump revogou vistos de juízes brasileiros, aplicou ao ministro Alexandre de Moraes as sanções da Lei Magnitsky e anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. A carta de 9 de julho de 2025 que comunicou a tarifa não invocou nenhuma razão comercial: invocou o julgamento de Jair Bolsonaro. Ou seja, um documento oficial de um governo estrangeiro declarou por escrito que o castigo económico ao Brasil tinha como causa um processo judicial brasileiro.

Uma tarifa não é uma ideia: é uma fatura, e alguém a paga. Não a pagou o deputado licenciado, cujo salário continuou a cair na conta. Pagaram-na o produtor de café de Minas, o pecuarista do Centro-Oeste, o operário do calçado e o pequeno exportador de frutas. O governo brasileiro passou meses a negociar, e só em novembro de 2025 parte das tarifas foi retirada, com destaque para o café e a carne.

«Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e o qual por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos Exércitos.»

Tiago 5:4

Quando o lóbi vira crime

Defender uma causa no estrangeiro é legítimo. Usar a força de uma potência estrangeira para pressionar um tribunal do próprio país tem outro nome no Código Penal. A Polícia Federal indiciou Eduardo por coação no curso do processo e, em setembro de 2025, a Procuradoria-Geral da República denunciou-o, juntamente com o comentador Paulo Figueiredo, que também vive nos Estados Unidos. A defesa diz que ele exerce liberdade de expressão. Há uma ironia amarga: quando o Supremo impôs a tornozeleira ao pai, em julho de 2025, uma das razões foi precisamente a atuação do filho no estrangeiro.

Flávio: o filme e o banqueiro

Antes da eleição, Flávio já estava no centro de outra história: a do filme Dark Horse, uma cinebiografia de homenagem ao pai. Segundo a reportagem do The Intercept Brasil, o financiamento negociado com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, chegou a cerca de 134 milhões de reais. Flávio reconheceu a autenticidade de um áudio em que cobra ao banqueiro as parcelas atrasadas, e reconheceu o contrato; diz que tudo foi legal e privado. Cerca de 61 milhões terão seguido para os Estados Unidos através de um fundo ligado a aliados de Eduardo, que assinou como produtor-executivo — os valores estão sob investigação. A produtora chegou a pedir 8,6 milhões pela Lei Rouanet, a mesma que o senador ataca como «mamata cultural», e retirou o pedido.

Vorcaro foi preso em novembro de 2025, quando tentava sair do país, acusado de uma fraude com um rombo estimado em 47 mil milhões de reais. Não há ainda sentença sobre o filme. Mas o fruto já se vê: uma homenagem a um líder «cristão» paga pelo dono de um banco que caiu numa fraude bilionária.

Flávio: quatro dias de outubro

A 25 de outubro de 2026, Lula venceu Flávio Bolsonaro por cerca de 4,4 milhões de votos, contados pelas mesmas urnas que tinham eleito o pai em 2018. Flávio não reconheceu o resultado. O Supremo mandou-o entregar os passaportes e proibiu-o de sair do país, no âmbito de uma investigação por lavagem de dinheiro. Publicamente, disse que nunca tinha pensado em sair do Brasil e que se defenderia.

Na terça-feira à noite, atravessou a ponte de Foz do Iguaçu para a Argentina com a mulher e as filhas. Segundo os serviços de migração argentinos, entrou às 22h50 e saiu quarenta minutos depois, num jato fretado em Puerto Iguazú. O avião reabasteceu em Guayaquil, no Equador, e aterrou na Florida na manhã seguinte.

  • Os Estados Unidos, segundo o New York Times e o Wall Street Journal, providenciaram o avião a partir da Casa Branca, por Jason Miller, em contacto com Eduardo. O dono da companhia disse à AFP que a viagem — 150 mil dólares — foi paga a partir de uma conta num banco americano.
  • A Argentina deixou passar e aplaudiu: um diretor do governo Milei celebrou que o senador estivesse «a salvo das garras do comunismo». O Clarín noticiou, com fontes anónimas, que o principal assessor de Milei, Santiago Caputo, acompanhou a operação; o governo não explicou.
  • O Equador foi só a escala: nenhuma fonte mostra participação do governo equatoriano — e foi o único dos três que Flávio não agradeceu.

Já na Florida, Flávio agradeceu a Milei «pela coragem, senso de justiça e legalidade» e a Trump, «um grande defensor da liberdade de expressão». E escreveu: «Não era minha intenção deixar minha pátria.» Até à data deste artigo não havia mandado de prisão contra ele: tinha apenas uma ordem para entregar um documento e responder a uma investigação, como qualquer cidadão. O governo brasileiro abriu uma apuração sobre o papel da Argentina e dos Estados Unidos.

Até André Ventura, aliado da mesma família política, disse que Flávio «não devia ter fugido» e que não lhe daria asilo em Portugal.

«Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disso é de procedência maligna.»

Mateus 5:37

«Fogem os ímpios, sem que ninguém os persiga, mas qualquer justo está confiante como o filho do leão.»

Provérbios 28:1

«Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?»

Mateus 7:16

Este artigo faz parte da série que acompanha o livro O Altar e o Algoritmo — Como identificar os novos mercadores da fé. A regra é a mesma do livro: separar o facto provado da suspeita e da negação da defesa, e pôr a fonte ao lado de cada afirmação.

A série «Pelos seus frutos»

Fontes

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