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Os mercadores da fé não são uma metáfora

«Farão de vós negócio», escreveu Pedro — a pessoa não é o cliente da operação, é o produto. A categoria bíblica do mercador da fé, de Miqueias a Ezequiel, e o que acontece quando a coisa chega ao voto.

Esta é a segunda de quatro partes. Na primeira ficou descrita a mecânica: como uma verdade serve de âncora a uma mentira, e como a estrutura toda passa a ser sagrada. Falta a pergunta que quase ninguém faz, porque parece grosseira — quem é que ganha dinheiro com isto?

Não é grosseira. É uma categoria bíblica, com definição, com sintomas e com sentença.

Os mercadores não são uma metáfora

O livro chama-lhes os novos mercadores da fé, e há quem leia isso como uma imagem forte. Não é uma imagem. É uma categoria bíblica, com definição, com sintomas e com sentença — e as Escrituras falam dela mais vezes do que falam de quase tudo o resto.

Comece-se pela definição mais crua, que é de Pedro:

E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos mestres, que introduzirão encobertamente heresias destruidoras, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas, sobre os quais já de largo tempo não está ocioso o juízo, e a sua destruição não dorme.

2 Pedro 2:1-3

Leia outra vez a expressão do meio, porque é toda a tese em cinco palavras: «farão de vós negócio». Não «enganar-vos-ão». Não «desviar-vos-ão». Farão de si mercadoria. A pessoa não é o cliente da operação; é o produto.

E repare em como Pedro os apresenta: não como invasores, mas como colegas. «Como entre vós haverá também falsos mestres» — entre vós. Dentro. Com cadeira, com microfone e com a confiança de toda a gente. O falso mestre de Pedro não chega de fora a atacar a congregação. Cresce dentro dela, e é por isso que ninguém o vê chegar.

Paulo dá o sintoma clínico, e cabe numa linha:

supondo que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais.

1 Timóteo 6:5

A piedade como causa de ganho. Não a piedade que dá lucro por acidente — a piedade praticada porque dá lucro. É a inversão completa: a religião deixa de ser o fim e passa a ser o meio.

O Livro de Mórmon dá a esta inversão um nome próprio, e a definição mais precisa que conheço em qualquer texto:

Ele ordena que não haja artimanhas sacerdotais; pois eis que artimanha sacerdotal é o homem pregar e estabelecer-se como uma luz para o mundo, a fim de obter lucros e louvor do mundo; não procura, porém, o bem-estar de Sião.

2 Néfi 26:29

Note-se o cuidado da definição. Não diz que é artimanha sacerdotal pregar. Não diz que é artimanha sacerdotal ser conhecido. Diz que é artimanha sacerdotal pregar a fim de obter lucros e louvor do mundo. O que está em causa não é a actividade — é a finalidade. Duas pessoas podem fazer exactamente a mesma coisa no mesmo púlpito, e uma delas estar a servir e a outra a vender.

E vem depois a frase que separa as duas: «não procura, porém, o bem-estar de Sião». É esse o critério, e é observável. O que é que esta operação, no fim de contas, deixa melhor? A congregação, ou a conta de quem a dirige?

O trio de Miqueias

Se houvesse um único versículo para descrever o que este artigo trata, seria este. Tem oitocentos anos antes de Cristo e podia ter sido escrito esta semana:

Os seus chefes dão as sentenças por suborno, e os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao Senhor, dizendo: Porventura não está o Senhor no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá.

Miqueias 3:11

Três profissões, três formas de corrupção, e as três a acontecer ao mesmo tempo: o chefe julga por suborno, o sacerdote ensina por interesse, o profeta adivinha por dinheiro. Miqueias não está a descrever três escândalos separados. Está a descrever um arranjo — cada um cobre o outro, e o conjunto tem uma aparência de legitimidade que nenhum deles teria sozinho.

E depois vem a parte que me tira o sono, que é a segunda metade do versículo: «e ainda se encostam ao Senhor, dizendo: Porventura não está o Senhor no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá.»

Não é que tivessem abandonado Deus. É que o levaram com eles. A frase «Deus está connosco» não é aqui uma confissão de fé: é uma garantia de impunidade. É Deus invocado como seguro contra as consequências — e essa invocação, e não a corrupção, é o que faz de Miqueias 3:11 um texto sobre religião e não apenas sobre política.

Os pastores que se apascentam a si mesmos

Ezequiel dá a mesma denúncia do lado de dentro, e com uma imagem que não deixa ninguém confortável:

Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza, e dize aos pastores: Assim diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Porventura não deveriam os pastores apascentar as ovelhas? Comeis a gordura, e vos vestis de lã; matais o cevado; porém não apascentais as ovelhas. As fracas não fortalecestes, e a doente não curastes, e a quebrada não ligastes, e a desgarrada não tornastes a trazer, e a perdida não buscastes; porém dominais sobre elas com rigor e dureza.

Ezequiel 34:2-4

Faça o inventário do que este pastor faz e do que não faz. Faz: come a gordura, veste-se de lã, mata o cevado, domina com rigor e dureza. Não faz: fortalecer as fracas, curar a doente, ligar a quebrada, trazer a desgarrada, buscar a perdida.

Cinco omissões e quatro acções, e todas as acções são de consumo. O rebanho não é o objecto do cuidado — é a fonte do alimento. E note-se a última: «dominais sobre elas com rigor e dureza». A dureza não é um defeito de carácter deste pastor. É o método pelo qual se mantém o arranjo.

Jeremias explica de onde vem a mensagem que estes homens pregam, e a explicação é desoladora de tão simples:

fazem-vos desvanecer; falam a visão do seu coração, não da boca do Senhor.

Jeremias 23:16

A visão do seu coração. Não uma revelação recebida e transmitida — uma convicção própria, projectada para fora e devolvida com a etiqueta de Deus. É por isso que a mensagem destes homens acompanha sempre, com uma precisão notável, aquilo que já lhes convinha acreditar.

Onde Jesus e Pedro perderam a paciência

Duas vezes nas Escrituras a resposta a isto não é um argumento. É a única violência que os Evangelhos atribuem a Cristo:

E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas; E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões.

Mateus 21:12-13

E, no livro de Atos, Pedro perante um homem que quis comprar o dom de Deus:

Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois supuseste que o dom de Deus se adquire por dinheiro.

Atos 8:20

Não há aqui nenhuma tentativa de compreender o ponto de vista do outro. Há uma porta a fechar-se. Guardo isto para quando me acusam de ser duro de mais com este assunto: eu escrevo artigos. As Escrituras derrubaram mesas.

Quando a coisa chega ao voto

Tudo o que descrevi até aqui tem um destino prático, e é bom dizê-lo sem rodeios: este aparelho não existe para produzir devoção. Existe para produzir votos, dinheiro e impunidade — e as três coisas vêm juntas.

O Livro de Mórmon acompanha uma sociedade inteira a percorrer este caminho, e o relato é clínico. Primeiro, os cidadãos honestos começam a apoiar os corruptos porque isso lhes traz vantagem:

E aconteceu, por outro lado, que os nefitas ajudaram e apoiaram esses ladrões, começando pelos mais iníquos deles, até que eles se espalharam por toda a terra dos nefitas e seduziram a maior parte dos justos, que passaram a crer em suas obras e a participar de seus saques, associando-se a eles em seus homicídios e combinações secretas.

Helamã 6:38

Duas coisas a reter. A primeira: «começando pelos mais iníquos deles» — a adesão não começa pelo meio da sociedade, começa pelas franjas e sobe. A segunda, e é a que dói: «seduziram a maior parte dos justos».

A maior parte dos justos. Não os maus. Os justos — as pessoas de bem, as que iam à igreja, as que tinham reputação a perder. E o texto diz exactamente como aconteceu: «que passaram a crer em suas obras e a participar de seus saques». Primeiro acreditaram. Só depois participaram. A crença veio antes do proveito, e foi ela que abriu a porta ao proveito.

E o desfecho:

E assim obtiveram total controle do governo, tanto que espezinharam e feriram e maltrataram e desprezaram os pobres e os mansos e os humildes seguidores de Deus.

Helamã 6:39

Repare em quem sofre no fim: «os pobres e os mansos e os humildes seguidores de Deus». Não os adversários políticos do regime. Os pobres, os mansos e os humildes — quer dizer, exactamente as pessoas que as Escrituras mandam proteger, e exactamente as pessoas em nome de quem tudo aquilo tinha começado.

Éter diz para onde isto aponta, e a formulação é impressionantemente moderna:

Pois acontece que quem a institui visa destruir a liberdade de todas as terras, nações e países; e causa a destruição de todos os povos, pois é instituída pelo diabo, que é o pai de todas as mentiras

Éter 8:25

Destruir a liberdade — não a fé, não a moral: a liberdade. E note-se a definição do autor da coisa: «o pai de todas as mentiras». O texto liga, numa frase só, a destruição da liberdade e a fábrica de mentiras. Não são dois problemas. São o mesmo problema visto de dois ângulos, e é por isso que um artigo sobre desinformação acaba sempre por ser um artigo sobre poder.

Onde o algoritmo entra

A meia-verdade não é invenção deste século. Miqueias já a conhecia. O que é deste século é a máquina que a distribui.

Um algoritmo de recomendação não tem opinião sobre teologia. Tem uma métrica: quanto tempo é que a pessoa ficou. E uma meia-verdade indignada retém melhor do que uma verdade inteira e serena — não porque seja melhor, mas porque a indignação é mais pegajosa do que a paz.

O resultado é que o sistema promove o engano sem intenção nenhuma de enganar. Ninguém programou o ódio. Programou-se a retenção, e o ódio retém.

É a diferença entre um crime e uma falha de projecto — e as falhas de projecto são mais difíceis de combater, porque não há ninguém a quem apontar.

Mas há uma segunda metade desta história que é preciso dizer, e é menos inocente. O algoritmo é cego; quem aprendeu a alimentá-lo não é. Um homem que descobre que a indignação rende mais do que a paciência tem, a partir desse dia, um incentivo económico permanente para produzir indignação — e esse homem já não é vítima de uma falha de projecto. É sócio dela.

É aqui que os mercadores de Pedro se encontram com a máquina. A avareza é antiga; a distribuição é que passou a ser instantânea, gratuita e mundial. O que Miqueias descreveu numa cidade, um telemóvel faz num continente antes do almoço.

Continua na parte 3 — «O ungido do Senhor» não quer dizer o que lhe fazem dizer.


Este texto desenvolve a introdução e os capítulos 2 e 7 de O Altar e o Algoritmo — Como Identificar os Novos Mercadores da Fé. As passagens em destaque são citações do livro. Todas as Escrituras citadas foram conferidas contra a edição publicada pela Biblioteca do Evangelho — a Bíblia de João Ferreira de Almeida na versão que a Igreja utiliza, o Livro de Mórmon e Doutrina e Convénios. Os doze capítulos tratam do resto: os mercadores, o dinheiro, o púlpito transformado em palanque, a milícia digital paga, e o caminho prático para sair.


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