O teste dos frutos, e quatro perguntas para usar amanhã
«E quem é o senhor para julgar?» é uma objecção justa, e tem uma resposta que não é minha. O teste que Jesus deu, a tabela de Paulo, a definição operacional de Morôni — e quatro perguntas para distinguir teologia de ideologia.
Esta é a última de quatro partes. Ficou descrita a mecânica do engano, ficaram identificados os mercadores, e ficaram desmontadas as duas armas — o ungido de um lado, o demónio do outro.
Falta o que interessa: como é que se distingue, na prática, uma coisa da outra. E a objecção previsível, a esta altura, é justa — e quem é o senhor para julgar?
Tem uma resposta, e a resposta não é minha.
O teste que Jesus deu, e que ninguém pode contornar
A objecção previsível, a esta altura, é: e quem é o senhor para julgar? É uma objecção justa, e tem uma resposta que não é minha.
Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm a vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis.
Mateus 7:15-16
A passagem completa — Mateus 7:15-20
«Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm a vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. E assim, pelos seus frutos os conhecereis.»
Repare no que Jesus não disse. Não disse «por suas palavras os conhecereis». Não disse «pela sua doutrina», nem «pelo seu carisma», nem «pelo tamanho da sua congregação». Disse frutos — aquilo que se colhe depois, e que não se pode fingir durante muito tempo.
E deu a razão pela qual o teste não falha: não pode a árvore boa dar maus frutos. Não é uma questão de probabilidade. É uma questão de natureza.
Note-se ainda o detalhe do disfarce: vestidos como ovelhas. Não vestidos de lobo. O falso profeta de Mateus 7 não se apresenta como ameaça — apresenta-se como um dos nossos, e a roupa é convincente. É por isso que o teste tem de ser aplicado ao que se colhe, e não ao que se vê.
A lista de Paulo, aplicada
Paulo deixou-nos a tabela de correspondência. Duas colunas, e nenhum lugar para se estar entre elas.
O fruto do Espírito
Caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.
Gálatas 5:22-23
As obras da carne
Inimizades, porfias, ciúmes, iras, pelejas, dissensões, heresias.
Gálatas 5:20
Vale a pena reparar na primeira palavra da coluna boa, na edição que a Igreja publica: caridade. Não «amor» em geral — caridade, que é a palavra que Morôni vai definir daqui a três parágrafos, comportamento a comportamento. As duas colunas de Paulo e a definição de Morôni são a mesma ferramenta vista de dois lados.
Escrevo no livro: «Se o resultado da adesão a um movimento político-religioso é o surgimento de agressividade, o uso de mentiras para "defender a verdade" e a divisão de famílias, a conclusão bíblica é inescapável: a árvore é má.»
Não é uma conclusão minha. É a de Jesus, aplicada.
A caridade como divisor de águas
O Livro de Mórmon oferece, em Morôni 7:45, a definição mais precisa de discipulado genuíno que conheço. E é útil precisamente porque é operacional: cada linha descreve um comportamento observável.
E a caridade é sofredora e é benigna e não é invejosa e não se ensoberbece; não busca seus interesses, não se irrita facilmente, não suspeita mal e não se regozija com a iniquidade, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Morôni 7:45
Compare, linha a linha, com o militante típico:
«Não se irrita facilmente»
Irrita-se com qualquer questionamento ao seu «líder ungido». Qualquer crítica factual é vivida como ataque pessoal.
«Não suspeita mal»
Suspeita mal de todos os que não partilham da sua visão — rotulados de comunistas, globalistas, inimigos de Deus.
«Tudo sofre, tudo suporta»
Não suporta a convivência com o diferente. Corta laços familiares com quem pensa de outra forma.
«Regozija-se com a verdade»
Espalha mentiras com a mesma convicção com que recitaria um versículo.
Quatro linhas de um versículo, quatro comportamentos observáveis, quatro respostas. Isto é o teste dos frutos deixado de ser abstracto.
E Paulo escreveu a mesma linha noutra carta, com uma palavra que aqui pesa mais:
Não se alegra com a injustiça, porém se alegra com a verdade;
1 Coríntios 13:6
Não se alegra com a injustiça. Guardo este versículo para um sintoma muito concreto e muito fácil de observar: a alegria com que se recebe a desgraça do adversário. Quando a queda de alguém é motivo de festa numa conversa entre crentes, há ali uma coisa que não é caridade, e o versículo diz o nome dela.
O antídoto está na mesma revelação
Seria desonesto passar tantas páginas a descrever o que a autoridade não é sem dizer o que ela é. E a resposta está nos versículos seguintes àqueles que já citámos — a mesma revelação, a mesma página, poucas linhas abaixo:
Nenhum poder ou influência pode ou deve ser mantido em virtude do sacerdócio, a não ser com persuasão, com longanimidade, com brandura e mansidão e com amor não fingido; Com bondade e conhecimento puro, que grandemente expandirão a alma, sem hipocrisia e sem dolo —
Doutrina e Convénios 121:41-42
Leia a lista devagar, porque cada palavra exclui uma coisa que vimos neste artigo. Persuasão — e não imposição. Longanimidade — e não impaciência com quem hesita. Brandura e mansidão — e não a dureza de Ezequiel 34. Amor não fingido — e não o teatro dos sepulcros caiados. Conhecimento puro — e não a visão do próprio coração vendida como revelação. E, no fim, «sem hipocrisia e sem dolo».
Repare no que a passagem afirma: nenhum poder pode ou deve ser mantido de outro modo. Não diz que é feio. Diz que não funciona — que a coisa mantida por outros meios já não é a coisa, seja qual for o nome que continue a ter.
E, para que ninguém confunda mansidão com silêncio, o versículo seguinte:
Repreendendo prontamente com firmeza, quando movido pelo Espírito Santo; e depois, mostrando então um amor maior por aquele que repreendeste, para que ele não te julgue seu inimigo;
Doutrina e Convénios 121:43
Repreender prontamente e com firmeza. Não há aqui nenhum convite à passividade. O que há é uma condição antes — «quando movido pelo Espírito Santo» — e uma obrigação depois: «mostrando então um amor maior por aquele que repreendeste».
Esse é o teste que separa a correcção da agressão, e é fácil de aplicar a si próprio. Depois de dizer a alguém que está errado, ficou a amá-lo mais ou menos? Se ficou a amá-lo menos, aquilo não foi repreensão. Foi outra coisa, com aparência de piedade.
E há a instrução mais difícil de todas, que não deixa ninguém de fora:
Eu vos digo, porém: Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem;
Mateus 5:44
Não «tolerai». Não «ignorai». Amai, bendizei, fazei bem, orai. Quatro verbos activos, e o último é o que desmonta tudo: é impossível orar sinceramente por alguém e continuar a acreditar que essa pessoa é demoníaca. Uma das duas coisas cede — e é por isso que, nos ambientes que descrevi, nunca se ora pelo adversário. Ora-se contra ele.
Quatro perguntas, para usar amanhã
Quando não consigo decidir se estou a ouvir teologia ou ideologia, faço quatro perguntas. Não são infalíveis. São suficientes para a maioria dos casos.
De onde é que isto vem? A teologia parte da revelação e submete-se a ela. A ideologia parte de um objectivo e procura a revelação que o justifique. A primeira pode mudar de conclusão. A segunda nunca muda de conclusão — só de argumento. Um sinal fiável: pergunte que facto faria aquela pessoa mudar de ideias. Se não houver nenhum, não está a ouvir uma convicção. Está a ouvir uma posição.
Quem é que isto exclui? Uma doutrina que convida toda a gente e uma doutrina que separa os aprovados dos outros não são a mesma doutrina, por muito que citem o mesmo versículo. Compare com 2 Néfi 26:33 e veja de que lado fica. E, se a mensagem incluir uma lista de quem está condenado, já respondeu — leia outra vez Alma 31.
Quem é que fica mais rico se eu acreditar nisto? É a pergunta do livro, e é a que quase ninguém faz, porque parece grosseira. Não é grosseira: é Miqueias 3:11. Siga o dinheiro, siga a audiência, siga o voto. Se a mensagem que exige a sua indignação também acontece, por coincidência, a encher a sala, a vender o livro ou a eleger o homem de quem quem fala é próximo, essa coincidência é um dado — e é o dado mais informativo que vai obter.
O que é que me pede a seguir? Se o passo seguinte for orar, estudar, perdoar ou servir, está provavelmente na fé. Se for votar, partilhar, doar com urgência ou odiar alguém em concreto, está provavelmente noutro sítio.
A última é a que mais dói, porque é a que mais gente falha — e falha-a com boa consciência. Quem foi levado a odiar em nome de Deus raramente pensa que está a odiar. Pensa que está a defender.
O paradoxo
Há uma frase no livro que me custou a escrever, porque é dura e é verdadeira:
Os seus seguidores chegam ao paradoxo supremo: defendem as mentiras do movimento com mais fervor do que as Escrituras que dizem venerar. Aceitam qualquer coisa — menos a verdade. E chamam a isso fé.
Não escrevi isto sobre inimigos. Escrevi-o sobre pessoas que conheço, em congregações onde estive, com quem partilhei o sacramento. É esse o problema. Se fossem estranhos, seria fácil.
E devo dizer mais uma coisa, para não me pôr do lado seguro deste texto: nada disto me é exterior. Já defendi ideias por serem minhas e não por serem verdadeiras. Já senti o prazer pequeno de ver cair alguém de quem discordava. O teste dos frutos não é um instrumento que aponto aos outros; é um espelho que às vezes me apanha primeiro.
O que o discernimento é, afinal
Discernir não é desconfiar de tudo. Quem desconfia de tudo já perdeu — só trocou uma prisão por outra, e a segunda é mais solitária.
Discernir é conseguir separar a parte verdadeira da estrutura que a envolve. É poder dizer: isto que disseste é verdade, e aquilo que construíste em cima não é. É a operação mais difícil que existe, porque exige aceitar que quem nos engana também nos disse alguma coisa certa.
É também, e sobretudo, uma operação que se faz com o coração no sítio. Morôni não escreveu que o Espírito de Cristo é dado a alguns para julgarem os outros. Escreveu que é concedido a todos os homens, para que eles possam distinguir o bem do mal — a todos, e para distinguir, não para condenar.
E há um teste final, que é o mais desconfortável de todos, porque não se aplica a mais ninguém:
Se a sua «fé» o tornou mais amargo, mais desconfiado, mais propenso a acreditar em conspirações do que em factos verificáveis, mais pronto a odiar do que a amar — você não está a seguir o Pastor.
O teste dos frutos não falha. Aplica-se a mim, aplica-se a si, e aplica-se a quem está no púlpito.
Este texto desenvolve a introdução e os capítulos 2 e 7 de O Altar e o Algoritmo — Como Identificar os Novos Mercadores da Fé. As passagens em destaque são citações do livro. Todas as Escrituras citadas foram conferidas contra a edição publicada pela Biblioteca do Evangelho — a Bíblia de João Ferreira de Almeida na versão que a Igreja utiliza, o Livro de Mórmon e Doutrina e Convénios. Os doze capítulos tratam do resto: os mercadores, o dinheiro, o púlpito transformado em palanque, a milícia digital paga, e o caminho prático para sair.
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