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A mentira que funciona tem metade de verdade

Paulo diagnosticou-o em 2 Timóteo 3, e a lista dele está por ordem. A mecânica do engano religioso em quatro passos — e porque é que gente honesta partilha, de consciência tranquila, aquilo que desconfia ser falso.

Uma mentira inteira dura pouco. Diga a alguém que o céu é verde e a conversa acaba ali — não é preciso argumentar, basta olhar para cima. É por isso que o engano que funciona a sério quase nunca é uma mentira inteira.

Passei trinta anos a estudar as Escrituras e trinta a projectar circuitos. São duas disciplinas que parecem não ter nada em comum e têm isto: as duas ensinam a procurar o ponto exacto onde um sistema falha. Num circuito, esse ponto costuma ser onde dois sinais bons se somam e produzem um mau. Na fé, é o mesmo — e este artigo é sobre esse ponto.

Aviso desde já que este texto ficou longo. Ficou longo porque a coisa que descreve é feita de peças pequenas, e uma peça pequena de cada vez é o modo como ela passa despercebida.

Paulo, o médico legista

Há na segunda carta a Timóteo um momento em que o apóstolo abandona o tom pastoral e assume o de um médico legista. Não está a consolar. Está a diagnosticar.

Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, Sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, Traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amantes dos deleites do que amantes de Deus, Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.

2 Timóteo 3:1-5

Paulo não lista virtudes que faltam. Lista vícios que abundam. E o que torna esta lista perturbadora não é o seu conteúdo — é a sua ordem.

Começa com o mais subtil e termina com o mais visível. Começa por dentro e termina por fora. Como se Paulo soubesse que a corrupção nasce sempre no interior e só depois aparece à superfície — e que, quando aparece à superfície, já vai tarde.

Primeira palavra: amantes de si mesmos.

Não de Deus. Não do próximo. De si mesmos. É a raiz de tudo o que se segue: o eu no centro, o eu como medida, o eu que usa Deus como instrumento em vez de se deixar usar por Ele.

Segunda palavra: avarentos.

Não a décima. Não a última. A segunda, logo a seguir ao amor próprio. Paulo sabia a ordem por que as coisas acontecem — primeiro alguém põe-se ao centro, depois cobra por lá estar.

A última da lista é a que interessa a este artigo: «tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela».

Aparência que funciona. Eficácia que não existe. É a definição exacta de uma meia-verdade — e, como se verá, é também a definição exacta de um negócio.

A mecânica, em três passos

No livro descrevo o processo assim, e repito-o aqui porque é a parte que se pode usar amanhã de manhã:

  1. Ancora na verdade. Parte-se de um facto real, verificável, legítimo. A violência está a aumentar. As famílias estão em crise. A corrupção existe. Os políticos mentem. São verdades. Ninguém as nega. E é exactamente por isso que funcionam como âncora.

  2. Introduz a mentira como consequência lógica. E tudo isso é culpa do comunismo, dos globalistas, da ideologia de género. Esta parte é falsa, ou grosseiramente simplificada, ou deliberadamente deturpada — mas é apresentada como a conclusão óbvia e inevitável da premissa verdadeira. Quem aceita a premissa sente pressão lógica para aceitar a conclusão.

  3. Imuniza contra a correcção. Qualquer facto que contradiga a narrativa é imediatamente catalogado como fake news da mídia corrupta, perseguição política ou sinal de que estamos a incomodar os poderosos. O sistema fecha-se sobre si mesmo: qualquer informação externa que o desafie é automaticamente descartada como prova de conspiração.

O resultado é um seguidor que defende com fervor convicções que nunca examinou, e que rejeita instintivamente qualquer informação que as questione — não porque seja estúpido, mas porque foi sistematicamente treinado para reagir dessa forma.

E aqui está a parte mais cruel, que escrevi no livro e que continuo a achar a frase mais dura que já escrevi sobre isto:

O sistema convence a pessoa de que esta reacção é sinal de discernimento espiritual. Ele vê o que os outros não vêem. Ele não se deixa enganar.

O quarto passo, que é o que torna isto religioso

Descrevi três passos durante anos. Estava incompleto. Falta o quarto, e é o quarto que transforma uma campanha de desinformação numa fé:

  1. Sacraliza a estrutura. A narrativa deixa de ser uma opinião política e passa a ser a vontade de Deus. Quem a defende não está a militar: está a obedecer. Quem a contesta não está a discordar: está a rebelar-se contra o Céu.

Este passo faz três coisas ao mesmo tempo, e cada uma delas custa caro a quem a recebe.

Muda o preço de mudar de ideias. Mudar de opinião política é fácil — toda a gente já o fez. Mudar de opinião quando a opinião foi apresentada como a vontade de Deus é apostasia. O custo psicológico de admitir o erro sobe de «enganei-me» para «traí».

Muda a natureza do adversário. Um adversário político é alguém que quer outra coisa. Um adversário espiritual é alguém que serve outro senhor. Contra o primeiro argumenta-se. Contra o segundo, luta-se — e, chegado esse ponto, quase tudo se justifica.

Muda o que a mentira significa. Este é o mais grave, e volto a ele mais à frente com as Escrituras na mão: quando a estrutura é sagrada, mentir por ela deixa de ser pecado e passa a parecer serviço.

A engenharia tem um nome para isto. Chama-se realimentação positiva: a saída do sistema volta à entrada e amplifica-se a si mesma, até o circuito saturar e deixar de responder ao sinal exterior. Um circuito nesse estado não está avariado no sentido de estar parado. Está a funcionar com toda a força, e a não ouvir nada.

«Deus, Pátria e Família»

Três palavras, e todas boas. Quem é contra Deus? Quem é contra a família? Quem se levanta numa sala e diz que é contra a pátria?

A frase é construída para que discordar dela pareça discordar das três coisas — e ninguém quer ser essa pessoa. Mas a frase não é um princípio: é uma porta. E do outro lado dela, como escrevo no livro, «esconde-se um projeto que exclui, divide e desumaniza quem não corresponde ao modelo aprovado».

O problema não é a palavra «Deus». É qual Deus.

convida todos a virem a ele e a participarem de sua bondade; e não repudia quem quer que o procure, negro e branco, escravo e livre, homem e mulher; e lembra-se dos pagãos; e todos são iguais perante Deus

2 Néfi 26:33

Conte os pares. Negro e branco. Escravo e livre. Homem e mulher. E depois, para não sobrar ninguém de fora, lembra-se dos pagãos — quer dizer, lembra-se também dos que não são do povo, dos que não pertencem, dos que estão do lado errado da fronteira religiosa. E fecha com quatro palavras que não deixam margem: «todos são iguais perante Deus».

Este é o Deus que convida todos. O «Deus» da equação política é um Deus de facção — o mesmo nome, o conteúdo substituído pelo caminho. Um sinal que passa por um filtro sai diferente do que entrou. É engenharia elementar, e é também teologia.

Sempre que ouvir o nome de Deus numa frase, faça-lhe esta pergunta: este Deus, tal como o senhor o está a descrever, convidaria a pessoa de quem o senhor acabou de falar mal? Se a resposta for não, não é o Deus de 2 Néfi 26:33. É outro, com o mesmo nome.

A mentira ao serviço da verdade

Falta explicar o mecanismo mais estranho de todos, e o mais destrutivo: pessoas honestas, que não roubariam um cêntimo, a partilhar diariamente coisas que sabem — ou suspeitam — que não são verdade, e a fazê-lo com a consciência tranquila.

Funciona assim. Uma vez sacralizada a causa (o quarto passo), a mentira deixa de ser avaliada pelo que é e passa a ser avaliada pelo que serve. A pergunta interior deixa de ser «isto é verdade?» e passa a ser «isto ajuda?». E, se ajuda uma causa que é a de Deus, então partilhar torna-se quase um dever.

As Escrituras não deixam esta porta entreaberta. Fecham-na, e fecham-na várias vezes.

Primeiro, no Decálogo. Não numa carta pastoral, não num conselho de sabedoria — nos Dez Mandamentos, ao lado de não matarás e não roubarás:

Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

Êxodo 20:16

Depois, na lista das coisas que Deus aborrece, e é aqui que a coincidência com o nosso tema deixa de ser coincidência:

Estas seis coisas o Senhor odeia; sim, sete a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, e mãos que derramam sangue inocente, O coração que maquina pensamentos viciosos, pés que se apressam a correr para o mal, A testemunha falsa que respira mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.

Provérbios 6:16-19

Sete coisas. Repare que duas delas são sobre a boca — «língua mentirosa» e «a testemunha falsa que respira mentiras» — e que a sétima, a que fecha a lista no lugar de maior peso, é «o que semeia contendas entre irmãos».

Semear contendas entre irmãos. É a descrição exacta do que uma campanha de desinformação religiosa produz — não como efeito colateral, mas como produto. A discórdia não é o preço a pagar pela mensagem. A discórdia é a mensagem, porque é ela que mantém as pessoas a olhar.

E repare na expressão de Salomão: a testemunha falsa respira mentiras. Não as diz de vez em quando. Respira-as — entram e saem sem esforço, sem decisão, sem consciência de que se está a fazer alguma coisa.

Paulo dá a instrução na forma positiva, e dá também a razão, que é o que interessa:

Pelo que deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros.

Efésios 4:25

«Porque somos membros uns dos outros.» A razão para não mentir não é jurídica — é anatómica. Mentir a alguém do mesmo corpo é o corpo a mentir a si próprio, e um corpo que mente aos seus próprios sentidos não sobrevive muito tempo.

E, para quem se convenceu de que ouviu o suficiente para ter a certeza, há um provérbio que devia estar afixado em todas as salas onde se discute política:

O que primeiro começa a sua causa parece justo, porém vem o seu próximo, e o examina.

Provérbios 18:17

«O que primeiro começa a sua causa parece justo» — parece. Sempre. É próprio de uma causa apresentada sozinha parecer justa; não é sinal nenhum de que o seja. «Porém vem o seu próximo, e o examina.» A instrução não é desconfiar: é esperar pela outra parte. E um sistema construído para garantir que a outra parte nunca chega até si é, por esta medida, um sistema construído para o enganar.

Paulo diz o mesmo em duas palavras, e é a frase mais curta deste artigo:

Examinai todas as coisas; retende o bem.

1 Tessalonicenses 5:21

O teatro da piedade

Volto à última palavra da lista de Paulo, aquela que ficou por explicar: aparência de piedade, negando a eficácia dela.

A aparência é o teatro político-religioso — as camisetas com versículos usadas em manifestações antidemocráticas, as orações antes de discursos de ódio, o nome de Jesus invocado para justificar armamento e destruição de bens públicos.

A «eficácia» deveria ser a transformação do carácter: mais mansidão, mais verdade, mais amor. O que o movimento produziu foi o oposto — e essa é toda a diferença entre aparência e eficácia.

Jesus tinha para isto uma imagem que ninguém esquece depois de a ouvir:

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundície. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e iniquidade.

Mateus 23:27-28

Sepulcros caiados. A cal é recente, é branca, é cuidada — alguém teve o trabalho de a aplicar. E é aplicada precisamente por cima do que não pode ser visto. O verso não acusa ninguém de negligência: acusa de manutenção. Aquela aparência dá trabalho, e alguém o faz todos os dias.

Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?

1 João 4:20

Continua na parte 2 — Os mercadores da fé não são uma metáfora.


Este texto desenvolve a introdução e os capítulos 2 e 7 de O Altar e o Algoritmo — Como Identificar os Novos Mercadores da Fé. As passagens em destaque são citações do livro. Todas as Escrituras citadas foram conferidas contra a edição publicada pela Biblioteca do Evangelho — a Bíblia de João Ferreira de Almeida na versão que a Igreja utiliza, o Livro de Mórmon e Doutrina e Convénios. Os doze capítulos tratam do resto: os mercadores, o dinheiro, o púlpito transformado em palanque, a milícia digital paga, e o caminho prático para sair.


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