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Ai dos que descem ao Egito: a fé, a fuga e o socorro de Washington

Isaías avisou contra quem procura salvação num poder estrangeiro. Em outubro de 2026, o candidato de «Deus, Pátria e Família» perdeu, não reconheceu o resultado e saiu do país com um visto americano prometido. Os factos, as datas e o que as Escrituras dizem.

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Pintura: um homem de fato escuro, com um passaporte numa mão e um pergaminho na outra, afasta-se de um templo antigo em direção a uma fortaleza com estandartes de águia, enquanto figuras de manto observam.

Escrevo isto a 28 de outubro de 2026, três dias depois da segunda volta. Algumas das coisas que conto ainda estão a acontecer, e digo onde. Separo, como no livro, o que está provado, o que está sob investigação e o que diz a defesa. Um texto sobre a verdade não se pode dar ao luxo de misturar as três.

Há uma passagem de Isaías que eu lia como história antiga. Esta semana deixei de conseguir lê-la assim.

O que aconteceu, por ordem

  1. Domingo, 25 de outubro. Lula vence a segunda volta com 64 256 232 votos, contra 59 826 041 de Flávio Bolsonaro — uma diferença de mais de quatro milhões e quatrocentos mil votos. Flávio não reconhece o resultado e pede a anulação da eleição.

  2. Segunda-feira, 26. Donald Trump diz que a eleição «pareceu ter fraude», sem apresentar prova nenhuma. No mesmo dia, Flávio grava um vídeo: «Nunca pensei em sair do país, eu vou entregar os meus passaportes.» O ministro Alexandre de Moraes tinha-lhe ordenado que os entregasse, num processo contra o advogado Willer Tomaz de Souza, amigo do senador e também ele fora do país.

  3. Terça-feira, 27. O prazo acaba ao meio-dia sem que os passaportes apareçam, e são cancelados. A própria defesa diz estar «completamente no escuro». A Polícia Federal pede ajuda às autoridades argentinas, que não registam a entrada dele. Ao fim do dia, um alto funcionário do Departamento de Estado norte-americano diz à BBC que o governo Trump «concederá» visto a Flávio e à família.

Isto é o que está provado. O que está sob investigação: Flávio é alvo de inquéritos por corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Não foi condenado por nenhum deles, e tem direito à presunção de inocência como qualquer pessoa. O que diz a defesa: pela voz do coordenador da campanha, o senador Rogério Marinho, que se trata de «perseguição».

Guarde essas três coisas separadas. Vamos precisar delas.

Isaías e o Egito

No tempo de Isaías, o reino de Judá estava apertado entre impérios. A Assíria avançava, e os conselheiros do rei tinham uma solução prática: fazer aliança com o Egito, que tinha os melhores carros de guerra do mundo antigo. O profeta respondeu assim:

Ai dos que descem ao Egito para buscar socorro, e se estribam em cavalos; e têm confiança em carros, porque são muitos, e nos cavaleiros, porque são poderosíssimos, e não atentam para o Santo de Israel, e não buscam ao Senhor!

Isaías 31:1

Repare que Isaías não acusa ninguém de ser fraco por ter medo. A Assíria era real. O que ele condena é o lugar onde se foi buscar a salvação: um poder estrangeiro, escolhido porque tinha mais força, por gente que dizia confiar em Deus.

E dois versículos depois diz a frase que eu gostava que todo o crente lesse antes de aplaudir um governo estrangeiro:

Porque os egípcios são homens, e não Deus; e os seus cavalos, carne, e não espírito.

Isaías 31:3

Não começou esta semana

A fuga é o último passo de um caminho que já tinha nome e data:

  • Início de 2025 — Eduardo Bolsonaro muda-se para os Estados Unidos. Segundo a Polícia Federal, actua junto de autoridades norte-americanas para obter medidas contra autoridades brasileiras.
  • 9 de julho de 2025 — Trump anuncia uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros e justifica-a, por escrito, com o processo contra Jair Bolsonaro, a que chama «caça às bruxas».
  • 30 de julho de 2025 — o Tesouro americano aplica a Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, uma lei pensada para punir violadores de direitos humanos e corruptos.
  • 11 de setembro de 2025 — Jair Bolsonaro é condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses pela tentativa de golpe de Estado.
  • 16 de junho de 2026 — Eduardo é condenado, por unanimidade, a 4 anos e 2 meses por coação no curso do processo: tentou interferir, a partir dos Estados Unidos, no julgamento do próprio pai.

Repare na sequência: cada vez que a justiça brasileira avançou, a resposta foi procurada em Washington. A fuga desta semana não é uma ruptura com esse caminho. É o fim dele.

«Deus, Pátria e Família»

No livro escrevi que este lema é uma porta: três palavras boas, construídas para que discordar delas pareça discordar das três coisas. O que se vê agora é o que está do outro lado da porta.

Pátria — e uma tarifa pedida contra o próprio país, que quem paga é o exportador de café e de carne, e os trabalhadores que ele emprega. Nenhum deles foi julgado por nada.

Família — e é verdade que se protegeu uma família. Uma só.

Deus — e o socorro foi pedido a Washington.

Pátria, disseram. E foram pedir a outro país que castigasse o seu.

A voz do povo

Quando o rei Mosias acabou com a monarquia entre os nefitas, deixou-lhes uma regra para escolherem os seus juízes. É das passagens mais citadas do Livro de Mórmon sobre governo, e merece ser lida devagar:

Ora, não é comum a voz do povo desejar algo contrário ao que é direito; mas é comum a minoria do povo desejar o que não é direito; portanto, observareis e tereis isto por lei — resolver vossos negócios de acordo com a voz do povo.

Mosias 29:26

Mosias não promete que o povo acerta sempre — o versículo seguinte prevê o dia em que a voz do povo escolhe a iniquidade. Mas o critério é a voz do povo, e não a vontade de quem perdeu.

O argumento para anular a eleição foi o prolongamento do horário de votação. Façamos a conta, que é pública. Segundo o TSE, os votos registados depois das 17h foram 34 393. A diferença entre os dois candidatos foi de 4 430 191. Mesmo que todos esses votos tivessem ido para Lula e fossem anulados, sobrava-lhe mais de 99% da vantagem. Não é uma questão de opinião: é aritmética que qualquer pessoa pode refazer em casa.

Chamar fraude a isto é aquilo de que Isaías também falou:

Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que fazem das trevas luz, e da luz, trevas; e fazem do amargo doce, e do doce, amargo!

Isaías 5:20

A décima segunda regra de fé

Escrevo isto a pensar sobretudo nos meus irmãos da Igreja, porque há uma frase que todos aprendemos na Primária:

Cremos na submissão a reis, presidentes, governantes, e magistrados; na obediência, honra, e manutenção da lei.

Regras de Fé 1:12

Não diz «quando o magistrado for dos nossos». Não diz «quando a decisão nos agradar». Um juiz manda entregar um passaporte; a resposta que esta regra ensina é entregá-lo, e defender-se no tribunal com tudo o que a lei permite. Foi, aliás, o que o próprio Flávio prometeu na véspera.

Há um provérbio que se costuma citar mal, e quero citá-lo bem:

Fogem os ímpios, sem que ninguém os persiga, mas qualquer justo está confiante como o filho do leão.

Provérbios 28:1

O provérbio não diz que quem foge é culpado — e eu também não o digo. Flávio não foi julgado, e é a justiça, não um artigo, que o há de dizer. O que o provérbio diz é outra coisa, e é mais incómoda: que o justo não precisa de fugir. Fica, de pé, confiante como um leão, e apresenta as suas provas. Quem tem a verdade do seu lado tem no tribunal o lugar mais seguro do mundo.

E Trump?

Este artigo não é sobre Donald Trump. Ele próprio disse esta semana: «Eu não estou governando o Brasil. Estou governando os Estados Unidos.» E disse também: «Eu gosto do Lula.» Um presidente americano defende o que julga ser o interesse do seu país, e os cristãos americanos que o apoiam têm as suas razões, que não são as nossas.

A pergunta que interessa ao crente brasileiro não é sobre Trump. É sobre nós: o que é que leva um homem que diz confiar em Deus a celebrar um governo estrangeiro que castiga o seu próprio país? Jeremias respondeu há vinte e seis séculos:

Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e põe a carne por seu braço, e cujo coração se aparta do Senhor!

Jeremias 17:5

O braço de carne de Jeremias é o cavalo do Egito de Isaías. Mudam os nomes; o gesto é o mesmo.

O aviso de Morôni

Há um aviso no Livro de Mórmon que não foi escrito para os nefitas. Foi escrito para nós, os gentios dos últimos dias — e Morôni diz exactamente o que devemos fazer quando o virmos cumprir-se:

Portanto, o Senhor vos ordena que quando virdes essas coisas surgirem entre vós, estejais conscientes de vossa terrível situação por causa desta combinação secreta que existirá entre vós.

Éter 8:24

Um versículo antes, Morôni dá a marca dessas combinações: são «instituídas para a obtenção de poder e lucro». Não me cabe a mim pôr o rótulo em ninguém — isso cabe aos tribunais, e num deles já houve sentença sobre um plano de golpe que incluía matar um presidente eleito, o seu vice e um juiz do Supremo. O que Morôni nos pede não é ódio. É que estejamos conscientes. Que não deixemos de ver o que está à vista.

Três perguntas para quem ainda hesita

  1. E se fosse ao contrário? Se um candidato da esquerda perdesse por quatro milhões de votos, se recusasse a aceitar o resultado, desobedecesse a um juiz e fugisse para Caracas ou Pequim com um visto prometido — que nome daria a isso? Se a resposta muda conforme o lado, não é fé. É claque.

  2. Quem pagou a conta? A tarifa de 2025 não caiu sobre o STF nem sobre o governo. Caiu sobre o produtor, sobre a fábrica e sobre o emprego. Quem a pediu sabia isso.

  3. O que é que esta narrativa me pede a seguir? Se pede que eu desconfie das urnas, dos tribunais e da aritmética, e confie num governo estrangeiro, está a pedir-me exactamente o que Isaías mandou não fazer.

Os frutos

Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?

Mateus 7:16

Os frutos desta semana estão à vista: uma eleição perdida e não reconhecida, uma acusação de fraude sem uma única prova, um passaporte que não foi entregue, um avião particular e um visto prometido por outro país. Não é preciso adivinhar intenções nem ler corações. Basta olhar para a árvore.

E nenhum versículo na boca apaga o que está nas mãos.


Fontes

Este texto desenvolve o capítulo 4 de O Altar e o Algoritmo — Como Identificar os Novos Mercadores da Fé, em particular «Eduardo Bolsonaro e a missão em Washington» e «A traição que não ousa dizer o nome». Escrito a 28 de outubro de 2026, com os factos conhecidos nesse dia.

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