«Os mórmons são cristãos?» — e porque é que o critério importa mais do que a resposta
Responder «sim» não convence ninguém. O que muda a conversa é aceitar o critério de quem pergunta e aplicá-lo a toda a gente — incluindo a quem o propôs. Com Atos 3:20-21 e Efésios 1:10.
É a pergunta que aparece em quase todas as conversas, mais cedo ou mais tarde: mas vocês são cristãos?
Já a ouvi de tudo quanto é maneira. Com curiosidade sincera, como acusação, e como pergunta retórica — daquelas em que a resposta já vem decidida antes de eu abrir a boca. Servi dois anos como missionário no Brasil e passei oito anos no Instituto de Religião. Não me lembro de um mês em que não a tenha ouvido.
Durante muito tempo respondi da forma óbvia: sim, somos. E percebi, com os anos, que essa resposta não convence ninguém — nem devia. Uma afirmação contra outra afirmação não resolve nada. Quem já decidiu que a resposta é «não» ouve o meu «sim» como propaganda, e tem razão em ouvi-lo assim: é exactamente o que qualquer pessoa diria da sua própria fé.
Então mudei de método
Foi assim que começou o livro. Escrevo logo no primeiro capítulo o que me propus fazer:
Neste capítulo levantarei pontos críticos usados por muitos para desclassificar os Mórmons como não cristãos. Usando as mesmas ferramentas por eles utilizadas, compararei os seus argumentos com as Escrituras, mostrando ao leitor um segundo ponto de vista capaz de tirá-lo de um paradigma hostil.
Em Defesa da Verdade, Volume 1, capítulo 1
Não discutir o critério. Aceitá-lo — e aplicá-lo a toda a gente, incluindo a quem o propôs.
Um critério ou vale para todos ou não vale para nada. É a regra mais antiga do pensamento honesto e é a que quase ninguém aplica a si próprio.
Primeiro, arrumar o campo
Antes de responder a uma pergunta assim é preciso saber de que estamos a falar. No livro classifico as igrejas cristãs em três grupos, não por gosto de arrumação, mas porque cada grupo responde de forma diferente à mesma pergunta histórica: o que aconteceu à Igreja que Cristo fundou?
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A Igreja Católica. Defende uma existência ininterrupta do sacerdócio, das doutrinas e das ordenanças desde que foi fundada por Jesus Cristo, através da sucessão apostólica de Pedro. A resposta é: nada aconteceu — a cadeia nunca se quebrou.
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As igrejas protestantes e neopentecostais. Fundadas por reformadores que afirmam ter a Igreja original caído em apostasia e que, pelo estudo da Bíblia, tentam restabelecer os ensinamentos e as práticas originais. A resposta é: a cadeia quebrou-se, e reconstrói-se lendo o texto.
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Os que afirmam a necessidade de uma restauração. Sustentam que a Igreja caiu em condições apóstatas e que não poderia ser restabelecida meramente através de uma reforma — só através de uma restauração. A resposta é: a cadeia quebrou-se, e uma cadeia partida não se reconstrói por leitura; é preciso quem a volte a atar.
É neste terceiro grupo que a minha igreja se coloca. E note-se uma coisa que costuma passar despercebida: o segundo e o terceiro grupo concordam no diagnóstico. Ambos afirmam que houve apostasia. Discordam apenas no remédio — reforma ou restauração.
As duas passagens que sustentam o argumento
Não peço que ninguém aceite a restauração por eu a afirmar. Peço que se leia o que Pedro disse, e depois o que Paulo disse, e que se pergunte a que é que se referiam.
E ele enviar Jesus Cristo, que já dantes vos foi pregado. O qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de todas as coisas, das quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio do mundo.
Atos 3:20-21
A palavra é restauração. Não reforma, não continuidade, não preservação. E Pedro não a apresenta como uma possibilidade: apresenta-a como aquilo que convém — o que tem de acontecer antes do regresso de Cristo.
Ora, restaurar pressupõe uma coisa simples e difícil de contornar: alguma coisa perdeu-se. Não se restaura o que nunca esteve em falta.
Para, na dispensação da plenitude dos tempos, tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra.
Efésios 1:10
O que está em jogo em «tornar a congregar»
O verbo grego é anakephalaiosasthai — reunir de novo sob uma cabeça, recapitular. Paulo escreve-o no contexto de uma «dispensação da plenitude dos tempos» que é futura em relação a ele.
A pergunta que faço no livro não é o que significa a palavra — é o que ela pressupõe. Reunir de novo pressupõe dispersão. Uma plenitude futura pressupõe uma insuficiência presente. Paulo não estava a descrever o seu tempo como o auge; estava a apontar para lá dele.
Onde o método se volta contra mim
Este método tem um preço, e é justo dizê-lo: aplica-se também à minha igreja.
Se aceito o critério do outro para ver se ele se sustenta, tenho de aceitar que ele possa sustentar-se. Há capítulos deste livro que escrevi à espera de uma conclusão e cheguei a outra. Há acusações que fui verificar convencido de que eram injustas e que descobri terem fundamento — e estão lá, com o fundamento e com a resposta, e não com a resposta sozinha.
O volume 1 trata, entre outras coisas, do sacerdócio negado aos negros até 1978, das contradições apontadas ao Livro de Mórmon, da tradução do Livro de Abraão e do que aconteceu aos papiros. Nenhum desses assuntos é confortável.
Um livro de apologética que só responde às perguntas fáceis é um panfleto.
A objecção mais comum, e o que ela revela
A acusação que mais ouvi é esta: vocês não são cristãos porque acrescentaram escrituras à Bíblia.
Escrevo no livro qual é o fundo da questão:
A grande diferença que causa várias acusações de que os Mórmons não são cristãos é que os ensinamentos da Igreja não dependem inteiramente da Bíblia, e os cristãos só aceitam a Bíblia como o único livro que contém todas as verdades de Deus dadas aos homens.
Em Defesa da Verdade, Volume 1, capítulo 1
Aceito o critério. E aplico-o.
Se o critério é «cristão é quem se limita ao cânone bíblico», então a pergunta seguinte é: quem fixou esse cânone, e com que autoridade? A lista dos 27 livros do Novo Testamento não caiu do céu — foi discernida ao longo de séculos, por concílios de homens, alguns dos quais rejeitaram livros que outros aceitavam.
Não digo isto para desacreditar a Bíblia. Digo-o porque quem usa o cânone como critério de exclusão está a apoiar-se numa decisão histórica que o seu próprio sistema teológico não consegue justificar sem recorrer a uma autoridade eclesiástica — que é exactamente aquilo que a Reforma rejeitou.
O critério, aplicado a nós
Acrescentámos livros ao cânone. Logo, não somos cristãos.
O mesmo critério, aplicado a quem o propõe
O cânone que usa foi fixado por uma autoridade que a sua própria teologia não reconhece. Com que critério aceita a lista e recusa quem a discute?
Não é uma armadilha retórica. É a mesma régua, aplicada nas duas direcções. Se quem me acusa tiver uma resposta boa — e há respostas boas, dadas por gente séria — então vale a pena ouvi-la. O que não vale nada é uma régua que só mede para um lado.
Porque é que isto interessa a quem não é mórmon
Suspeito que a maior parte de quem lê isto não pertence à minha igreja. Vale a pena na mesma, e não por caridade.
O que está em causa aqui é uma operação que se faz todos os dias e quase nunca com consciência: escolher o critério que produz o resultado que já se queria.
Escolhe-se a definição de «cristão» que exclui quem se queria excluir. Escolhe-se a definição de «família» que exclui quem se queria excluir. Escolhe-se a definição de «mérito», de «trabalhador honesto», de «bom português». O truque é sempre o mesmo — e quase nunca é deliberado. As pessoas acreditam mesmo no critério, e não reparam que o escolheram depois de saber a resposta.
Aprender a inverter isso — pegar no critério de outra pessoa e aplicá-lo com seriedade, incluindo a ela — é uma ferramenta que serve para muito mais do que teologia. Serve para ler um jornal. Serve para ouvir um discurso. Serve para julgar um vizinho.
O que o livro não é
Não é uma conversão. Não estou a tentar mudar a religião de ninguém, e um livro nunca mudou a de ninguém.
Também não é uma queixa. Não vai encontrar aqui a lamentação de quem se sente perseguido — a Igreja tem duzentos anos de acusações e sobreviveu-lhes sem a minha ajuda.
É um livro de trabalho: pega nas acusações uma a uma, com os textos, com as fontes e com as datas, e vê o que fica de pé. Se ficar de pé alguma coisa contra mim, fica escrita.
A resposta, no fim
Fico-me pela pergunta — que é o que o livro faz também. Depois de doze capítulos, o que peço ao leitor não é que concorde comigo.
É que consiga responder por si. E que saiba dizer com que critério respondeu.
Quem responde «não» com um critério que aplicou a toda a gente merece respeito. Quem responde «sim» pela mesma razão, também. O que não vale nada é responder qualquer das duas coisas porque foi o que ouviu dizer.
Este texto desenvolve o capítulo 1 de Em Defesa da Verdade — Volume 1, edição revista. As passagens em destaque são citações do livro. Os doze capítulos tratam da história de Joseph Smith, das testemunhas do Livro de Mórmon, do sacerdócio, da natureza de Deus, do Livro de Abraão e das acusações mais duras — incluindo as que custam a responder.
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